quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Muros

A grade, o muro,
A cerca eletrificada,
Humano urbano inseguro,
Não participa de nada,
Nem tenta mudar o futuro,
Classe média estagnada...

Não presta atenção
Nem se informa,
Segue o padrão
E obedece a norma

Manter o padrão é sua meta,
Ao emprego e à família é devoto,
Mas deixa todas na reta
Quando decide seu voto,
Autonomia deleta,
Funciona à controle remoto.

Não presta atenção

Nem se informa,
Segue o padrão
E obedece a norma

Chega perto da favela
E já vai passando mal
Aciona o vidro à manivela
E nem para no sinal,
A vertigem atropela
Na esquina do abismo social.
 
Não presta atenção

Nem se informa,
Segue o padrão
E obedece a norma

Sente medo e pena do pobre,
Dá esmola, caridade,
E se acha muito nobre
Sem noção de sociedade,
Será que ele um dia descobre
Como um cidadão de verdade?
 
Não presta atenção

Nem se informa,
Segue o padrão
E obedece a norma


Carlinhos Guarnieri

Outras Palavras

O sistema atropela,
Dá tombo, pisa na goela.
Cava a nossa fala,
Mas sua prepotência
Não sufoca a consciência,
A ânsia que nos abala.
E se busca outra linguagem,
Cada sílaba, ATITUDE,
FAZER, verbo que não ilude
E dá concretude à mensagem,
E esta, ninguém derruba.
Não importa quem caia ou suba,
Ninguém mata a coragem



Carlinhos Guarnieri

Massa Instantânea

Eu falo de uma massa
Que não é espaguete,
É um massa crua,
É o menino de rua
Rotulado de pivete
Pela eucação escrava.
Eu falo de uma massa
Que não é macarrão,
É o guri sem teto,
Sem afeto, analfabeto,
Seu colchão é o chão,
Vida de cão sem raça.
Eu falo de uma massa
Que não é massa folhada,
Pede grana n sinal,
So tem folhas de jornal
Contra o frio da madrugada,
Sua pele é sua couraça.
Eu falo de uma massa
Que não é de pastel,
Recheada de vento
E dormindo ao relento
O seu teto é o céu,
Seu recheio, é só carcaça.
Eu falo de uma massa
Que não é ravioli,
Intragável, indigesta,
que a princípio não presta
E que ninguém engole,
E no mole, despedaça.
Eu falo de uma massa
Que não é parafuso,
É o moleque inteligente
Que de tanto solvente
Vai ficando confuso
Enquanto o tempo passa...
Eu falo de uma massa
Que não é panqueca,
Fissurada no crack
A mente sente o baque
Enquanto o corpo seca,
E a vida embaraça.
Eu falo de uma massa
Que não é capelete,
Não tem armas pra luta
Nem força pra discupta,
Por isso nem compete,
Fica vivo por pirraça.
Eu falo de uma massa
Que não é nem um miojo,
Boicotada, atrofiada,
Que não é valorizada
E a elite tem nojo,
Seu paraíso é a praça.
Vem agora e abraça
A massa instantânea,
Que não quer ficar no molho
Mas transcender o teu olho,
Quer tua atitude espontânea,
Vem agora e ABRAÇA!


Carlinhos Guarnieri